terça-feira, 27 de setembro de 2011




Tenho uma amiga que quando percebe que eu estou triste costuma me perguntar quem roubou a minha caixa de lápis de cor. Tem vez que nem pergunta, apenas comenta: "poxa, dessa vez levaram as cores que você mais gosta!" A tristeza afrouxa um pouco, por mais que eu esteja chateada... Primeiro, porque é muito bom a gente se sentir olhado com carinho. Depois, porque essa expressão tem uma inocência capaz de fazer gente grande tocar em coisas sérias sem ficar com medo de queimar a mão.

De vez em quando, ao ouvir a pergunta, acontece de uma lágrima ou outra escapulir, efeitos que alguns sentimento são a desaguar no rosto quando o coração fica apertado. Mas, algumas vezes, quando eu choro diante dessa indagação não é pelas cores que não encontro na caixa nem por lembrar de quem supostamente as roubou. Choro por perceber que ainda dou aos outros o poder de roubá-las. Por notar que, no fim das contas, quem rouba os meus lápis de cor preferidos sou eu.... 

sexta-feira, 23 de setembro de 2011


Ela pegou o guardanapo molhado e manchado de maquiagem...
Escreveu, dobrou e entregou pra ele junto com a caneta.
Sorriu, um sorriso doído mas aliviado.
Equilibrou-se nos saltos, disse pro garçon que o rapaz ali pagaria a conta
 e saiu pela porta do restaurante, sumindo entre a multidão de guarda-chuvas.
Ele desdobrou o papel, ainda em transe com aquela sequência de acontecimentos.
 E leu: "amor não resiste a tudo, não...
Amor é jardim e as vezes enche de erva daninha..."

quarta-feira, 21 de setembro de 2011


Há certas horas, em que não precisamos de um amor,
não precisamos da paixão desmedida,
não queremos beijo na boca e nem corpos
a se encontrar na maciez de uma cama. 

Há certas horas, que só queremos a mão no ombro,
o abraço apertado ou mesmo o estar ali, quietinho,
ao lado, sem nada dizer. 

Há certas horas, quando sentimos que estamos pra chorar,
que desejamos uma presença amiga, a nos ouvir paciente,
a brincar com a gente, a nos fazer sorrir. Alguém que ria de
nossas piadas sem graça, que ache nossas tristezas as maiores do mundo,
que nos teça elogios sem fim. E que apesar de todas essas mentiras úteis,
nos seja de uma sinceridade inquestionável. Que nos mande calar
a boca ou nos evite um gesto impensado. 

Alguém que nos possa dizer:
acho que você está errado... mas estou do seu lado. 
Ou alguém que apenas diga: 
sou seu amor, e estou aqui!... 

 
W. Shakespeare

sexta-feira, 2 de setembro de 2011




Difícil é querer quando o outro nos inquieta...
Quando os seus medos denunciam os nossos e põem em risco
o propósito que muitas vezes alimentamos de não demonstrar
 fragilidade, vulnerabilidade, invencibilidade, tristeza...
Quando a exibição das suas dores expõe, de alguma forma,
 também são as nossas,
aquelas conhecidas e as anônimas,
as antiquíssimas e as recém-nascidas.
Quando o seu pedido de socorro, verbalizado ou não,
exige que a gente saia do nosso egoísmo, do nosso sossego,
da nossa rigidez, do nosso faz-de-conta,
para caminhar docemente ao seu encontro.
E, ao encontrá-lo, talvez lhe dizer a verdade:
“eu sei o quanto você está doendo porque eu já doí também” ou
 “eu sei o quanto você está doendo porque estou doendo também, agora”
e/ou “porque vivo, e agora mais do que nunca, estou à mercê de doer de novo.”